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                                                               FAZENDA VILLA-FORTE:

                                                                         SUA HISTÓRIA E CURIOSIDADES

 

 


 

VILLA-FORTE

            Em meados do século XVIII, Gabriel Francisco de Mé Junqueira comprou de um fazendeiro português, o Sr. Bustamante, cerca de 200 alqueires mineiros de terra em Engenheiro Passos, município de Resende, Estado do Rio de Janeiro, que constituíam as fazendas de Boa Vista e Boa Esperança. As terras eram cortadas pela estrada federal que ligava as duas cidades mais importantes do Brasil, Rio e São Paulo. Banhada pelo rio Paraíba, a propriedade fazia divisa ao sul com o estado de São Paulo.

            O contrato de compra e venda incluía a casa grande, sede da fazenda, casas de colonos, direitos sobre as terras cedidas em comodato para a Estrada de Ferro Central do Brasil para funcionamento da estação ferroviária de Engenheiro Passos, um engenho de açúcar cuja construção data de 1790, um alambique para fabricação de cachaça, máquinas importadas da Inglaterra para beneficiar café (e um imenso terreiro para secagem dos grãos), uma roda d'água e uma enorme pedra mó para o preparo do fubá. Os empregados e moradores das redondezas levavam sacos de milho para trocar pelo fubá.

 


Vovô Mé
    ( Gabriel Francisco de Mé Junqueira )

 


Casa grande - início do século passado


 

            Seu Mé, ou vovô Mé, como costumava ser chamado, era um homem folgazão, amante dos prazeres da vida, do vinho, do jogo e das mulheres. Consta que era relativamente comum vê-lo no meio de uma roda de meninos negros a contar-lhes histórias ou a puxar pelas rédeas um cavalo levando uma criança a passeio.

            Em 1888, quando foi decretada a Abolição da Escravatura, a maioria dos escravos manifestou o desejo de permanecer na fazenda.

            Casado, teve três filhas. Uma delas, Dalila Junqueira, veio a contrair matrimônio com um jovem oficial da marinha, José de Siqueira Villa-Forte. Por ocasião do falecimento do vovô Mé, o genro comprou das cunhadas a parte da fazenda que lhes cabia por direito na herança e a propriedade passou-se a chamar Fazenda Villa-Forte. Vovó Lili e vovô Almirante tiveram doze filhos; oito chegaram à idade adulta, quatro homens e quatro mulheres: por ordem de idade, Yvonne, Haydée, Newton, Dhyla, Nelson, José, Paulo e Lygia.

            Quando não estava embarcado, José dividia o tempo entre a fazenda e a residência da família no Rio, a casa de número 190 da Praia de Botafogo, onde foi construído o prédio que hoje abriga a Fundação Getúlio Vargas.

            Depois de reformado, o Contra-Almirante Villa-Forte passou a permanecer a maior parte do tempo em Engenheiro Passos, encarregando-se pessoalmente da administração da fazenda.

 


Escadaria em mármore e grades de ferro trabalhadas, mantidas até hoje.

 

 

Atrás, da esquerda para a direita:
Dyla, Haydée, Yvone e Newton.
Na frente:
Ligia,
Mãezinha (vovó Dalila), vovô Villa-Forte, José, Nelson e Paulo.

 


Cartão de boas festas - ano 1919


 

Uma típica fazenda de café, Villa-Forte também cultivava hortaliças e orgulhava-se de um belo pomar de jabuticabas (dizem, o maior e mais antigo do estado, quem sabe do Brasil). Um outro parênteses: plantar um jabuticabal é um ato de amor; trata-se de uma árvore de crescimento bastante lento e só é possível colher os primeiros frutos depois de décadas; é um presente de uma geração para a seguinte. O pomar incluía também muitas mangueiras, goiabeiras, abacateiros, mamoeiros e pés de jambo, tamarindo, carambola, jamelão, amora e grumixama, entre outros. Suas duas maiores árvores eram (e ainda são) um imenso jataí e uma belíssima sapucaia.

 


Pomar de jabuticabas


 

 

 


Portão da casa grande e frente da fazenda em 1940

 

            A fazenda também criava porcos, cavalos, aves e gado bovino e caprino. O morro atrás da casa principal, que no alto ostenta uma cruz de madeira e é chamado de morro do Santo Cruzeiro, outrora era chamado de morro dos Cabritos.

            De qualquer forma, a agropecuária era uma atividade ingrata e de baixo retorno; as terras, embora extensas, consistiam na maior parte em morros meia-laranja, aráveis a um alto custo e baixa eficiência e só na base da tração animal.

Como uma alternativa econômica viável veio a hotelaria e em 1932 Villa-Forte foi registrada na junta comercial como "Pensão Familiar". Afinal, a família já tinha alguma tradição no ramo. Há um século, percorrer o caminho do Rio a São Paulo constituía uma senhora viagem. A estrada era precária, de mão única e muitos trechos não eram pavimentados. Somente em 1950 ela seria duplicada. Autoridades que se deslocavam entre as duas grandes cidades frequentemente lá pernoitavam. O imperador Pedro II pousou em Villa-Forte. Laços de amizade surgiam. A casa grande dispunha de um salão especial que só era aberto para receber altos dignitários. Em um leilão oficial promovido pelo estado após a Proclamação da República, o almirante Villa-Forte interessou-se em arrematar algumas peças, motivado, provavelmente, pela amizade e pelo respeito que a família nutria pelo imperador. O quadro de rica moldura com o retrato de Dom Pedro que está exposto na sala da recepção do hotel costumava ficar na sala de despachos e escritório particular de Sua Majestade. Foram adquiridos na mesma época um cravo (instrumento musical, um antecessor do piano), canapés, vasos e namoradeiras de palhinha que levam a marca do carpinteiro de Dom Pedro (encontram-se no salão da recepção).

 


Sala de estar com canapé e pianos antigos


 

            A fazenda dispunha também de um campo de aviação registrado, de 1.200 por 100 metros. Forçado por um temporal a descer em Villa-Forte, em uma escala não planejada, teria escrito o príncipe de Orleans e Bragança, o conde d'Eu, no Livro de Impressões : "Agradeço ao mau tempo o bom tempo que aqui me proporcionou".

            Villa-Forte, um lugar tão espaçoso e aprazível e com uma família tão numerosa, estava sempre cheia: a princípio, de convidados, apenas; como as despesas se tornassem cada vez mais pesadas, a partir de 1918 foi instituída uma taxa praticamente para cobrir custos. Daí para pensão familiar e depois para hotel de lazer foi um pulo.


Banheiro das vacas e carro de bois
 

 


Estação ferroviária de Engenheiro Passos com o nome original, Boa Vista

 

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Estação ferroviária de Engenheiro Passos - 1934

 


Vista do curral, primeiras alas de apartamentos e casa grande ao fundo.
No local da atual piscina, quadra de volei - 1948
 



Casa grande e morro dos Cabritos - por volta de 1940



Os irmãos ( 2a. geração dos Villa-Forte)  em  1938
 


 

Curiosidades históricas

            O ano de 1924 foi um período conturbado da história do Brasil. No segundo semestre as tropas legalistas haviam chegado à fronteira entre Rio e São Paulo e estacionaram no rio Salto. As tropas federalistas ordenaram a evacuação da sede da Fazenda Villa-Forte e lá se entrincheiraram. As viagens de trem entre as duas capitais seriam suspensas. A família se retirou às pressas em um último comboio superlotado enquanto os soldados se instalavam no local. Muitas cabeças de gado foram confiscadas para servir de alimento à soldadesca, com a promessa de reembolso futuro, o que jamais chegou a ocorrer. A sede foi palco de combates e tiros de armamento pesado deixaram marcas nas paredes do casario. O Dr. Bartolo, amigo da família e hóspede residente, foi o único a permanecer. Afirmou que já estava muito velho e queria ver a ação de perto. Conta-se que por muito tempo era comum achar nos campos cápsulas deflagradas e que o povo da região gostava de usar invólucros de granadas como vasinhos para flores.

            Em 1936, a Ação Integralista Brasileira lançou seu dirigente, o paulista Plínio Salgado, como candidato à presidência da República. Em uma campanha para angariar adeptos, a caravana integralista passou por Villa-Forte, e o líder carismático, com o lema "Deus, Pátria e Família", a saudação "Anauê" com o braço direito erguido e seus "Periquitinhos Verdes", assim chamados pela cor do uniforme, conquistou a simpatia de uma comunidade católica e monarquista. Alguns jovens da família chegaram a aderir ao movimento, provavelmente sem questionar sua inspiração fortemente fascista.

            Na década de 60, uns 20 alqueires foram desapropriados para a construção da represa do Funil. O Presidente Juscelino, que sofreria mais tarde um desastre fatal a cerca de um quilômetro de distância de Villa-Forte, na rodovia Rio-São Paulo, duplicada na década de 50 pelo Presidente Dutra, inaugurou a estrada para São Lourenço e Caxambu.



            O povoado de Engenheiro Passos, a 475 m de altitude, situado a meio caminho entre as duas maiores cidades brasileiras, é a última estação do estado do Rio, a poucos quilômetros da divisa com o estado de São Paulo. Por motivo de economia, a linha foi construída como via de mão única, mas as estações dispõem de trilhos duplos e desvios para manobras. Para prevenir acidentes ou evitar um choque de trens vindo em sentidos opostos, a estação, que era um brinco, equipada com o que de mais moderno havia da tecnologia inglesa especializada, contava com relógios reluzentes de alta precisão, aparelhos de código Morse e mantinha rigoroso controle do posicionamento dos trens ao longo da via férrea. Para transitar pela estação, o maquinista devia entregar a licença, enrolada em uma argola de uns 30 cm de diâmetro; a operação era efetuada com o trem em movimento: o agente ferroviário, perfilado na plataforma, o braço esticado à frente, os dedos juntos e a mão em riste recolhia na dobra do cotovelo a licença liberada pelas mãos do maquinista que, por sua vez, alguns metros adiante, retirava do gancho (uma espécie de pregador que pendia do beiral do telhado da estação) a argola com a licença a ser entregue na próxima estação.

            As crianças, brincando na frente do engenho, quando ouviam o apito do trem na curva do ribeirão, saíam em disparada pela pista de terra que margeava a linha, apostando corrida com o trem para ver se conseguiam chegar primeiro na estação.

            O trem de aço, de alto luxo, importado dos Estados Unidos, fez sua viagem inaugural na década de 1950. Saía do Rio às 8 h 10 min e chegava em Engenheiro Passos por volta das 12 h 30 min. Foi, por muitos anos, o principal meio de transporte dos hóspedes do Rio para o hotel (poucas famílias dispunham de automóvel particular na época). A viagem era um acontecimento; a visita para um lanche no requintado vagão restaurante, um bônus extra para a garotada.

            As chegadas eram festivas e os embarques, momentos memoráveis. Os que permaneciam no hotel organizavam verdadeiros cortejos, entoando canções de despedida. Os mais sensíveis se debulhavam em lágrimas saudosas.

            Para os menos abonados, havia o "Expressinho", um trem de madeira que levava mais de seis horas para cobrir o mesmo percurso.

            A Fazenda Villa-Forte era danada de casamenteira. A maioria dos irmãos e muitos dos seus filhos se casaram com hóspedes que costumavam freqüentá-la. A cerimônia de casamento das irmãs foi realizada na casa grande, com pompa e circunstância. O convite incluía a véspera, o dia do enlace e o dia seguinte. Muitos hóspedes que lá se conheceram, contraíram matrimônio. Muitos se hospedaram no hotel durante décadas a fio, se fazendo acompanhar de filhos e netos.

            Tratando-se de um lugar extremamente agradável, que propicia um convívio descontraído e ameno, parece apenas natural que tenha ensejado o surgimento de laços de imorredouras amizades.  

            Engenheiro Passos, março de 2005

 

            Quero agradecer à minha mãe, Dhyla, pelos deliciosos momentos de ternura e aconchego quando me contava as histórias da sua infância e adolescência e as maravilhosas histórias da fazenda.

 

                                  

Marilia Coutinho de Biasi

 



 

       

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